A rápida expansão da energia solar em todo o mundo está a criar um novo desafio para a transição energética: garantir a gestão sustentável dos painéis solares fotovoltaicos (PV) quando estes atingirem o fim da sua vida útil. É esta a principal reflexão do relatório "End-of-life management for a circular economy: Solar photovoltaic panels", recentemente publicado pela Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA).
O estudo alerta que os painéis solares, cuja vida útil ronda os 30 anos, começarão a gerar volumes cada vez maiores de resíduos nas próximas décadas. As estimativas apontam para mais de 3 milhões de toneladas de painéis solares em fim de vida por ano até 2035, podendo esse volume ultrapassar 25 milhões de toneladas anuais até 2050.
Segundo a IRENA, a adopção de uma abordagem baseada na economia circular permitirá transformar este desafio numa oportunidade para reduzir impactos ambientais, recuperar matérias-primas críticas, fortalecer cadeias de valor e criar novos empregos associados à reutilização, recondicionamento e reciclagem destes equipamentos.
O relatório identifica três princípios fundamentais para uma gestão sustentável dos painéis solares fotovoltaicos:
- Reduzir, através do desenvolvimento de equipamentos concebidos para gerar menos resíduos e serem mais fáceis de reparar e reciclar;
- Reutilizar, prolongando a vida útil dos painéis e dos seus componentes por meio de testes, reparação, recondicionamento e certificação;
- Reciclar, recuperando materiais como vidro, alumínio, silício e metais presentes nos módulos fotovoltaicos para reintegração na cadeia produtiva.
Para acelerar esta transição, a IRENA recomenda o fortalecimento das políticas públicas, o investimento em infraestruturas especializadas e o desenvolvimento de mercados para materiais reciclados. Entre as medidas apontadas como prioritárias destaca-se a implementação da Responsabilidade Alargada do Produtor (RAP), mecanismo que atribui aos fabricantes e importadores responsabilidades pela recolha e tratamento dos equipamentos quando estes chegam ao fim da sua vida útil.
O estudo defende ainda a definição de estratégias nacionais, metas e regulamentação específica para prevenir práticas inadequadas de recolha e tratamento de resíduos eletrónicos, bem como a criação de normas que promovam a reutilização e a reciclagem de equipamentos fotovoltaicos.
Embora o relatório tenha um alcance global e não analise especificamente o caso de Moçambique, as suas conclusões são particularmente relevantes para países onde a energia solar está em rápida expansão. De acordo com o Resumo Renováveis em Moçambique 2025, publicado pela Associação Moçambicana de Energias Renováveis (AMER) e pela ALER, o país contabilizava, até ao final de 2025, 113 mini-redes em operação e 895.409 Sistemas Solares Caseiros (SHS) vendidos.
Estes indicadores demonstram o crescimento contínuo da energia solar no país e evidenciam a importância de incorporar, desde já, princípios de economia circular no desenvolvimento do sector. Embora a maioria destes equipamentos permaneça em funcionamento durante muitos anos, o planeamento antecipado de políticas, regulamentação, infraestruturas e modelos de negócio permitirá que Moçambique esteja preparado para gerir o futuro fluxo de painéis solares em fim de vida, reduzindo impactos ambientais e criando novas oportunidades económicas ligadas à reciclagem e recuperação de materiais.
À medida que o país acelera a expansão das energias renováveis para aumentar o acesso à eletricidade e apoiar a transição energética, integrar a gestão do ciclo de vida dos equipamentos solares nas políticas públicas poderá ser um passo determinante para garantir que o crescimento do sector seja acompanhado por soluções ambientalmente sustentáveis e economicamente circulares.
Faça download gratuito do relatório AQUI!
AMER
Juntos pelas Energias Renováveis em Moçambique!